Estou cansado destas conversas que aparecem sempre nos momentos mais convenientes sobre arbitragens e outros casinhos, por isso hoje acordei e lembrei-me de partilhar aqui a (uma parte da) história entre dirigentes que culminou na irradiação (temporária) do 23º presidente do Futebol Clube do Porto, como contada através de pequenos excertos noticiosos de um jornal lisbonense (Diário de Lisboa, Casa Comum), que desenterrei há umas semanas

  • 10 de dezembro de 1955

Joga-se nas Antas um decisivo F. C. Porto-Sporting

Esgotado o tema Madrid-Lisboa, que em vários tons foi cantado, prossegue no domingo o campeonato nacional da 1.ª Divisão, que não teve de ser interrompido pelo diplomático desafio de Chamartin.

A jornada apresenta, como motivo maior de interesse, o desafio Porto-Sporting, nas Antas. Presentes os quatro grandes no topo da tabela, pela força da sua própria força, a partida de além-Douro oferece largas perspectivas. Pode dar aos Nortenhos um avanço substancial sobre o Sporting e conservar-lhe a vantagem apreciável sobre o Benfica. Eis, pois, ambiente de expectativa criado em redor do sensacional encontro. (…)

Mas o Sporting, não obstante estar numa situação de irregularidade, instável, denunciando afinal a fase de transição porque passa, não pode de antemão ser tido como derrotado. (…)

«A priori», o Sporting não parece, todavia, apetrechado de momento para dominar um F. C. Porto embalado para a conquista de um título que anda há muito tempo a procurar.

  • 11 de dezembro de 1955

Causou grande emoção no Porto a decisão da Federação de Futebol adiando o jogo marcado para hoje com o Sporting

Conforme se previa na nossa edição de ontem, o atraso na chegada dos jogadores que constituiram a selecção de Lisboa que foi jogar a Madrid levou a Federação a considerar a posição dos clubes, de que fazem parte os referidos jogadores, em relação aos jogos de hoje, decidindo-se o adiamento dos dois mais importantes jogos da jornada – aqueles em que deveriam intervir o Benfica, em Setubal, e o Sporting, no Porto.

Efectivamente, foi só pelas 18 horas que um avião com alguns jogadores, vindo de Madrid, chegou a Lisboa, indo aterrar, em recurso, á pista da Granja do Morquês. Outros jogadores – o sportinguista Travaços e o belenense Dimas – e os dirigentes do grupo viajavam noutro avião quem, devido ás condições atmosféricas, foi obrigado a regressar a Madrid.

Só hoje, efectivamente, cerca do meio-dia, aterrou, finalmente, na Portela, o avião que trouxe aqueles dois jogadores, Travaços e Dimas, os seleccionadores nacional e de Lisboa, srs. dr. Tavares da Silva e Gustavo Teixeira, e os dirigentes federativos e associativos, srs. dr Conceição Gil, dr. Carlos Costa, João Rosa, Casquilho Faria e Eliziário Graça e os jornalistas desportivos srs. Vítor Santos e Aurélio Márcio.

O grupo do Sporting, que tinha seguido incompleto para o Porto, regressou hoje a Lisboa e, tendo chegado a Santa Apolónia pouco antes das 14 horas, seguiram para o centro de estágio.

Como já é do domínio publico, a Federação resolveu adiar para 1 de Janeiro os jogos Porto-Sporting e Vitória-Benfica. Segundo informações que hoje recebemos, certos meios dirigentes do futebol na capital do Norte julgam essa decisão inconciliável com a letra do regulamento da prova, propondo-se impugná-la. Segundo esse ponto de vista, a Federação não dispõe de poderes para promover o adiamento da prova além de 24 horas.

A impressão no Porto

PORTO 11 (Pelo telefone). – A não realização do encontro Porto-Sporting agitou esta cidade de modo extraordinário, pois o entusiasmo era enorme, desde o começo da semana, em todo o Norte do País.

A lotação do Estádio das Antas, computada em mais de 53.000 lugares já se achava esgotada desde há dias e a afluência de forasteiros que ontem se verificou nas ruas da cidade, deixava transparecer a importancia do encontro.

Quando começou a correr a notícia de que o jogo seria adiado, por atraso do avião que transportava os jogadores de Madrid, notou-se grande efervescência em todos os sectores da vida da cidade e os telefonemas para as redacções dos jornais, procurando a confirmação, atingiram um numero elevadíssimo.

A ideia dominante era de que o adiamento além de condenável sob o ponto de vista desportivo, também lesava o aspecto económico da cidade.

Logo que se teve conhecimento de que um avião aterrara na Granja, os espíritos acalmaram, convencidos de que o encontro se realizaria.

A partida de Lisboa da equipa do Sporting, com excepção de Carlos Gomes e Travaços mais radicou essa certeza. Ás 19 horas, quando a Emissora Nacional irradiou o comunicado da F. P. F., adiando o desafio, registaram-se nos «cafés» e praças da cidade, comentários acalorados discordando, abertamente, da decisão federativa.

A direcção do Futebol Clube do Porto reuniu-se imediatamente, com a presença do sr. dr. Ponciano Serrano, presidente da assembleia geral e, depois de apreciada a situação e, em especial, a notícia vinda a publico, referindo-se a um acordo entre os dois clubes, resolveu apresentar o seu pedido de demissão.

Aquele dirigente, com quem falámos, disse-nos:

– A direcção do F. C. Porto tomou a atitude que julgou ser lhe imposta pela sua dignidade ferida, uma vez que não foi sequer ouvida sobre este gravíssimo caso e não se hesitou, apesar disso, em divulgar que o adiamento havia sido decidido de comum acordo entre os dois clubes. A demissão foi aceite. Limitei-me a receber o pedido e vou tentar demover os directores da sua resolução. Se o não conseguir, o assunto será presente á assembleia geral do clube.

Sobre o adiamento do encontro, afirmou-nos também:

– Considero ilegal a decisão tomada pela F. P. F., tanto mais que um dos interessados não foi ouvido. Esta medida precipitada só pode ser remediada, mandando realizar o jogo amanhã, segunda-feira. O próprio regulamento prevê que os jogos adiados, por motivo de força maior, se efectuem 24 horas depois. O que hoje se passar será importantíssimo para aputar o futuro procedimento do meu clube.

Um treino-demonstração

Á hora do jogo, apesar do tempo chuvoso, muitos milhares de pessoas compareceram no Estádio das Antas, para assistir ao treino do F. C. do Porto, anunciado pela manhã.

No campo verificava-se a presença de vários grupos dos bairros populares da cidade, que ostentavam dísticos com protestos contra o adiamento do jogo.

Na pista viam-se todos os dirigentes do grande clube portuense. Ynstrich, quando entrou no rectangulo, escutou demorada ovação.

(…)

O treino foi dirigido por Ynstrich e agradou plenamente. O publico não deixou de, constantemente, manifestar o seu protesto contra o adiamento do jogo do campeonato.

Como nota digna de registo, informamos que o árbitro e os juizes de linha, marcados para o encontro Porto-Sporting, compareceram no Estádio das Antas, visto não haverem recebido ordem superior em contrário.

A Federação de Futebol vai ser processada ?

PORTO, 11 (Pelo telefone) – O adiamento do jogo Porto-Sporting, além do aspecto desportivo, teve consequências de ordem económica muito lamentáveis. Ontem, tinham chegado a esta cidade pessoas vindas de todas as regiões do País.

Contudo, a notícia da suspensão da partida permitiu que muitas outras pessoas tomassem a decisão, ainda a tempo, de não se deslocarem para o Porto.

Claro está que os restaurantes, hoteis e pensões tinham feito já os seus completos abastecimentos na previsão da larga afluência de forasteiros que a partida arrastaria a esta cidade.

Entretanto, o adiamento do jogo trouxe a todos os estabelecimentos conferidos prejuízos que ascendem a mais de 600 contos. Por tal motivo, fomos informados de que a industria hoteleira do Porto e estabelecimentos estudam a possibilidade de processar a Federação de Futebol, responsabilizando-a pelos prejuízos de que foram vítimas.

Porto-Sporting na 3.ª feira ?

Por informações que nos chegam á hora de fechar a edição, julgamos saber que a F. P. F. se encontra reunida para estudar a possibilidade de se realizar depois de amanhã o jogo Porto-Sporting.

Parece que já foram ou vão ser consultadas as direcções dos dois clubes para o assunto se decidir em definitivo.

  • 12 de dezembro de 1955

A marcha do campeonato

O Campeonato Nacional da 1.ª Divisão voltou ontem a ter uma jornada incompleta. Não vale a pena falar dos motivos que provocaram o adiamento do F. C. Porto-Sporting e do Vitória de Setubal-Benfica adiamento que, sobretudo, no Porto, suscitou grande efervescência.

  • 13 de dezembro de 1955

Demitiu-se a direcção da A. F. do Porto

PORTO, 13. (Pelo telefone). – Está longe de se extinguir a efervescencia provocada nesta cidade pelo adiamento, á ultima hora, do encontro Porto-Sporting. O assunto continua a ser objecto das mais ásperas críticas, provocando enorme excitação. Ao pedido de demissão da direcção do clube azul-branco veio agora juntar-se o dos dirigentes da Associação de Futebol do Porto. A decisão foi tomada esta madrugada, após uma reunião que se prolongou por algumas horas e a que estiveram mais tarde presentes os corpos directivos do F. C. Porto, devido a um convite daquela associação. Há ainda a acrescentar a demissão dos quatro representantes do futebol portuenes na Federação. Mantem-se apenas o vice-presidente daquele organismo, sr. dr. Carlos Costa. Este disse-nos que vai brevemente esclarecer a posição por si assumida no momentoso caso, tornando publicas as razões que, como portuense e dirigente desportivo nacional, são imperativo do seu dever na atitude tomada. Os dirigentes da A. F. P. afirmaram que a sua demissão fora motivada pelo facto da Federação não haver consultado o F. C. do Porto, quanto ao adiamento do jogo com o Sporting.

Os elementos da Associação demissionários filiam a sua atitude nas mesmas razões.

  • 27 de dezembro de 1955

O presidente do F. C. Porto foi irradiado e os restantes directores suspensos por 3 anos

A direcção da Federação Portuguesa de Futebol, apreciando o ultimo incidente do futebol português, resolveu o seguinte: – punir o presidente da direcção do F. C. do Porto com a pena de irradiação; punir os restantes membros da direcção do F. C. do Porto com a pena de suspensão de actividade por três anos; louvar a direcção do Vitória de Setubal, demitir de membro da Comissão do Estatuto do Jogador o jornalista Alves Teixeira; agradecer aos directores da Associação de Futebol do Porto, srs. Artur Cardoso e Marcelino Ferreira, a colaboração prestada na organização do Portugal-Austria (B); lamentar o premeditado alheamento do publico no Portugal-Austria (B).

A emoção no Porto

Segundo as informações que recolhemos no Porto, estas graves sanções causaram ali a maior surpresa. O assunto é objecto de todas as conversas e travam-se á sua volta as mais acaloradas discussões.

Entretanto, os dirigentes do importante clube portuense examinaram a situação com toda a serenidade e vão fazer as necessárias diligências junto das entidades superiores para que a sua posição fique devidamente salvaguardada. Para esse efeito, a direcção do Futebol Clube do Porto deverá ter hoje, ainda, uma reunião com os restantes corpos gerentes para traçar o caminho a seguir e levar o competent recurso á Direcção-Geral dos Desportos.

  • 28 de dezembro de 1955

Os dirigentes do F. C. Porto mantêm a opinião de que a decisão federativa é ilegal

A decisão federativa, de irradiação do presidente da direcção do Futebol Clube do Porto, sr. dr. Cesário Bonito, e da suspensão por três anos dos restantes membros da direcção do clube, provocou a mais larga discussão em todo o país, nomeadamente nos sectores desportivos portuenses, ou directamente afectados.

Essa decisão foi tomada numa reunião de segunda-feira passada, à noite, após o regresso da selecção portuguesa, á qual assistiram os srs. tenente-coronel Angelo Ferra(?) (presidente), Carlos Ramildes, (?) Conceição Gil, dr. Jaime Lemos, (?) Silva Pereira, Alexandre Miranda, capitão Rebelo de Carvalho, e (?) Alves Vieira, isto é, de todos os directores em exercício, pois o (?) Carlos Costa, vice-presidente, indicado pela Associação de Futebol do Porto, havia apresentado, por motivos que se relacionavam com o incidente, o seu pedido de demissão.

A direcção do Futebol Clube do Porto, ao tomar conhecimento de tais decisões, resolveu recorrer para a a Direcção-Geral dos Desportos, apresentando-se várias hipóteses: – se a decisão for confirmada superiormente, os directores incriminados terão de ceder o lugar a quem for eleito para os substituir; – a decisão ser alterada, ou em termos de manter o afastamento dos dirigentes, ou de maneira a esta não se verificar; – as penas de irradiação ed e suspensão por três anos ser revogada, pura e simplesmente.

Ontem, á noite, em frente da sede do F. C. do Porto, apareceram alguns milhares de sócios do clube, numa manifestação de solidariedade, a quem o sr. dr. Cesário Bonito aconselhou calma.

A direcção do Futebol Clube do Porto enviou telegramas aos srs. Presidente do Conselho, ministro da Educação Nacional, governador civil do Porto e Federação Portuguesa de Futebol, dos quais nos permitimos transcrever os textos essenciais para a apreciação do problema:

AO SR. MINISTRO DA EDUCAÇÃO: – «A direcção do F. C. Porto comunica a V. Ex.ª que, para cumprir indeclináveis obrigações legais e morais e para evitar perigoso triunfo de dissídios que podem ter grave repercussão foi forçado a comunicar á direcção da F. P. Futebol a impossibilidade de acatar suas ilegalíssimas deliberações que, sendo executadas, colocariam sem a mínima defesa o património e os direitos do clube e deixariam a sua massa, especialmente no desafio do próximo domingo, sem autoridade interna responsável».

À FEDERAÇÃO POTRUGUESA DE FUTEBOL – A direcção do F. C. Porto, tomando conhecimento pelos jornais da irradiação do seu presidente e da suspensão trienal de mais membros, decretados pela Federação Portuguesa de Futebol, vem sinceramente comunicar a V. Ex.ª a sua impossibilidade de acatar essa condenação porque ela é absolutamente ilegal. Por agora, para assim a qualificar, bastará lembrar que não foi precedida de qualquer processo em que os interessados fossem ao menos ouvidos.

A direcção do F. C. Porto é mandatária de 32.000 cidadãos, que a acompanham e nessa qualidade é responsável por um património moral e material que não pode abandonar, pois terá de prestar contas.

A direcção do F. C. Porto tem, sobretudo, o compromisso físico e desportivo de assegurar á sua massa associativa de que a lei triunfará.

A direcção do F. C. Porto tem a obrigação máxima de, como tal, estar presente no próximo desafio Porto-Sporting, para, com a sua legítima e acatada autoridade, contribuir para que esse jogo se realize, como todo o Porto quer, ou seja com a máxima ordem e desportivismo. – Direcção do F. C. P.

A direcção do Futebol Clube do Porto, nos seus telegramas, expõe o princípio da impossibilidade de acatar uma ilegalidade, e de contribuir para que o jogo Porto-Sporting se realize com toda a ordem e desportivismo.

Prescrutando nos meios desportivos, estes são de opinião que têm competência para aplicar as referidas sanções, como o comprova a própria citação legal do seu comunicado. A Federação, acrescentam, organizou um processo sobre o assunto.

O sr. dr. Campos Figueira, presidente do Congresso da Federação de Futebol, entrevistado pelo jornal da especialidade, «Mundo Desportivo», fez estas declarações fundamentais:

– O que eu sinto, de há um tempo a esta parte, é que as atitudes dos dirigentes andam um pouco descontroladas. Há muita paixão, violência na crítica aos actos dos dirigentes e, sobretudo, uma falta de cuidado e de escrupulo na apreciação das intenções das pessoas, até ao que briga com a honestidade e a moral.

– Os dirigentes são homens que podem errar, mas os que hierarquicamente lhes estão subordinados devem admitir que o erro não é mal intencionado e que deve ser corrigido ou reparado pelas vias competentes. Os interesses desportivos ou económicos de um clube não são mais respeitáveis que a honorabilidade dos dirigentes que exercem funções de orientação».

PORTO, 28. – (Pelo telefone). – Está a ter mais vastas repercussões do que a princípio poderia talvez esperar-se a decisão da Federação Portuguesa de Futebol relativa aos dirigentes do Futebol Clube do Porto. A opinião pública está a reagir vivamente, e por diferentes maneiras, acerca deste caso, que pouco a pouco se tem transformado num problema citadino. A verdade é que o Futebol Clube do Porto, pela sua própria designação e pelo seu glorioso passado, constitui um património da cidade, tendo ao mesmo tempo a força associativa de mais larga representação do segundo aglomerado populacional do País. Á sua volta, manifesta-se constantemente o entusiasmo e a dedicação de milhares de adeptos, acrescidos ainda da mais profunda simpatia de pessoas responsáveis, que sentem intensamente tudo aquilo que está ligado á sua terra.

O Futebol Clube do Porto, vivendo assim idolatrado e olhado com o maior carinho, tem inevitávelmente de ver sempre junto de si enorme multidão nos momentos em que, por qualquer motivo, o seu prestígio seja atingido, ou vítima de qualquer injustiça.

É por isso, perfeitamente compreensível toda a reacção provocada, pois além da decisão federativa revestir-se da maior gravidade no aspecto meramente pessoal, ainda acresce a circunstancia no campo desportivo, sabido que a equipa do F. C. do Porto ocupa o 1.º lugar no Campeonato Nacional, estando a ser seguida a sua carreira com apaixonante interesse por toda a gente nortenha. Tudo isto, e mais que poderia ainda acrescentar-se, como o adiamento á ultima hora do jogo Porto-Sporting no passado dia 11, criaram um ambiente ainda mais entusiástico. Deve dizer-se, no entanto, que a população se tem mantido dentro da maior compostura e disciplina, evidenciadas ainda ontem, á noite, quando os dirigentes azuis-brancos, especialmente o presidente da direcção, foram alvos de uma inesperada manifestação por parte de algumas centenas de associados.

Tudo isto faz aumentar extraordináriamente o interesse para o jogo com o Sporting, no próximo domingo. A lotação do Estádio das Antas, para 50.000 pessoas, está totalmente esgotada.

O presidente do Futebol Clube do Porto, sr. dr. Cesário Bonito, em conversa mantida connosco, hoje, ao começo da tarde, disse-nos que a direcção do seu clube tudo fará para que o desafio corra na melhor ordem. Ele próprio, antes de se iniciar o encontro, irá ao microfone do estádio proferir algumas palavras á massa associativa, pedindo-lhe para que se mantenha serena e confiante em todos os momentos da partida. Contudo, para evitar quaisquer desmandos dos mais exaltados, que poderiam acarretar graves consequências para o clube, foi decidido não fazer aluguel de almofadas, enquanto por parte das autoridades serão tomadas especiais medidas de precaução.

Quanto á situação da direcção do Futebol Clube do Porto perante a pena imposta aos seus dirigentes, nada mais há a acrescentar a não ser as decisões já anunciadas, os telegramas enviados e o recurso competente. O sr. dr. Cesário Bonito afirmou-nos que a sua posição em relação ao clube continuava a ser a mesma, ou talvez ainda mais objectiva e firme da defesa do que julgava ser os seus direitos.

Quanto á sua posição, nada mais tinha a dizer, limitando-se a penas a aguardar com toda a serenidade e confiança o julgamento do recurso interposto por parte das entidades superiores.

  • 29 de dezembro de 1955

O recurso do F. C. do Porto deu entrada na Direcção-Geral

Ao fim da tarde de ontem, o recurso interposto pela direcção do Futebol Clube do Porto relativamente ás penas federativas de que os seus dirigentes foram alvo, deu entrada na Direcção-Geral dos Desportos. O recurso foi entregue, pessoalmente, ao sr. coronel Sacramento Monteiro pelo sr. Alves da Silva, delegado do Futebol Clube do Porto. A Direcção-Geral já ordenou á Federação o envio do respectivo processo sobre o assunto. A decisão deve ser conhecida na próxima semana.

O jornalista Monteiro Poças pediu a demissão do seu cargo no «Estatuto do Jogador»

O jornalista da especialidade, sr. José Monteiro Poças, escreveu á Federação Portuguesa de Futebol uma carta em que pede a sua demissão de membro da Comissão do «Estatuto do Jogador» nomeada por aquele organismo, fundamentando a sua decisão em discordar da pena de demissão imposta ao jornalista Alves Teixeira, que também fazia parte da referida comissão.

  • 2 de janeiro de 1956

A táctica defensiva da equipa leonina não deu resultado

(…)

Falta falar do árbitro. Com publico tão disposto a colaborar, era de exigir melhor trabalho (…)

O publico, que encheu, literalmente as Antas, portou-se com admirável compostura. Ofereceu ao Sporting uma das maiores ovações que a equipa terá encontrado. Antes da partida principiar, o presidente do F. C. Porto leu, ao microfone, uma exaltação que foi intensamente aplaudida. Quando a equipa chegou aos 2-0, a assistência rompeu numa tempestade de aplausos, voltada para o camarote, onde estava a direcção do clube. (…)

Acabou o jogo e, como vai já sendo hábito, os jogadores do Porto foram buscar o seu treinador, dando com ele a «volta da alegria» pela pista!

Nota 1: O texto está transcrito exatamente como estava nos jornais (à exceção da hifenização), seguindo a ortografia da época e incluindo erros (como "Morquês" ou "Ynstrich"), por isso ai do NGramatical que me apareça por aqui.

Nota 2: O presidente do Sporting de Lx era, à altura, Carlos Góis Mota, secretário geral da Legião Portuguesa.

by Stylianius1

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4 Comments

  1. AmilcarCabral4 on

    Aqui o resumo:

    Em dezembro de 1955, o Futebol Clube do Porto vivia um momento decisivo no campeonato nacional, preparando-se para receber o Sporting num jogo crucial nas Antas. O estádio estava esgotado, com mais de 50.000 expectadores, e a cidade do Porto vibrava com a expectativa do confronto. Porém, no dia do jogo, 11 de dezembro, a Federação Portuguesa de Futebol decidiu adiar o encontro de última hora, alegando o atraso na chegada de jogadores do Sporting que integravam a seleção nacional em Madrid. O grupo sportinguista enfrentara problemas de viagem devido às condições atmosféricas, com alguns elementos só tendo aterrado em Lisboa já no domingo de manhã.

    A decisão do adiamento desencadeou uma verdadeira crise no Porto. A direção portista, liderada por Cesário Bonito, demitiu-se coletivamente por considerar que não fora ouvida pela FPF, enquanto a cidade registava prejuízos económicos estimados em 600 contos nos setores hoteleiro e comercial. A Associação de Futebol do Porto solidarizou-se com o clube, demitindo-se também, e a situação agravou-se quando a Federação decidiu reagendar o jogo para 1 de janeiro, violando aparentemente o seu próprio regulamento que limitava os adiamentos a 24 horas em casos de força maior.

    O clímax da crise ocorreu a 27 de dezembro, quando a FPF aplicou sanções severíssimas: irradiação do presidente Cesário Bonito e suspensão por três anos dos restantes diretores portistas. Estas penas, consideradas desproporcionais e ilegais pelo FC Porto, motivaram um recurso à Direção-Geral dos Desportos e geraram uma vaga de solidariedade sem precedentes no Norte do país. Milhares de portistas manifestaram-se em apoio aos seus dirigentes, num ambiente de grande tensão mas também de notável disciplina.

    O jogo acabou por se realizar a 2 de janeiro de 1956, com o Porto a vencer por 2-0. Momentos antes do início, o presidente Cesário Bonito – já penalizado com irradiação – discursou no microfone das Antas perante uma multidão que o ovacionou, apelando à serenidade e ao desportivismo. O público correspondeu, comportando-se com admirável compostura e oferecendo até uma ovação à equipa visitante.

    Este episódio histórico transcendeu o âmbito desportivo, revelando profundas clivagens geopolíticas no futebol português e consolidando a identidade do FC Porto como símbolo de resistência nortenha contra o centralismo de Lisboa. O caso ocorreu ainda num contexto político particular do Estado Novo, onde o presidente do Sporting, Carlos Góis Mota, era simultaneamente secretário-geral da Legião Portuguesa.

  2. O texto todo que coloquei, fi-lo de forma a contar uma narrativa factual dos acontecimentos através do que foi destacado pelo jornalismo da altura. Quase como se fosse uma televisão, apenas a transmitir dados e factos, que depois ficam ao critério de cada um para os ver e interpretar pessoal e parcialmente. Compreendo que a grande maioria das pessoas não tem interesse ou tempo para ler isto, já que apenas “depositei” aqui conteúdo muito extenso que tinha recolhido e que se relaciona com a história e a identidade do clube. No entanto, um resumo cheio de conectores e dividido numa narrativa perfeita pode ser perigoso porque, apesar de muito bonito, certos meios para resumir textos acabam por saltar para conclusões deduzidas pelos acontecimentos que nem sempre estão certas. Tenho por isso a informar que o resultado final foi 3-1 (para o Porto) e que o jogo se realizou na data marcada – 1 de janeiro.