Para refletir-mos…

Ontem doeu-me. Vi-vos no estádio, muitos de pé, outros ajoelhados, todos em silêncio. Não era o silêncio da descida; era o silêncio da alma que já deu tudo e continua a dar. Há um traço profundamente português na vossa história: o clube que chegou ao topo, que se fez campeão sem precisar de ser capital, que caiu sem saber bem porquê — ou sabendo demasiado bem porquê. O clube que resistiu.

Dizem que o futebol é só futebol. Dizem isso com a ligeireza de quem nunca perdeu um pai e encontrou consolo nas mesmas cadeiras do estádio onde se sentavam juntos, com a sobranceria oca de quem nunca chorou ao ouvir o relato, de nunca se esqueceu de si por noventa minutos. O futebol não é só futebol; é a coisa mais importante do mundo entre as coisas menos importantes do mundo.

Ontem, vi pais a abraçarem filhos, a ensinarem-lhes como se chora por amor. Vi miúdos com cachecóis ao pescoço, a tentarem entender o que é isto de amar sem garantias. Vi velhos de rádio na mão, a murmurarem os nomes dos que já partiram. Vi-vos. Aprendi.

Aprendi que o amor a um clube não é uma palavra de dicionário. É gente, é gesto, é estar quando o clube já não sabe estar. Aprendi que o futebol, o verdadeiro, o das bancadas frias, dos cafés quentes antes do jogo, ainda existe. Aprendi que o amor sem vitória é o mais puro de todos. Não espera; só dá. É fácil amar na vitória. O que vocês fazem é mais difícil: amar na ruína. Isso transforma quem vê, inspira, opera mudança.

Não desistam. O Boavista caiu. O vosso amor não.

Fonte: Pedro Chagas Freitas

by the_old_striker

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4 Comments

  1. CrazyMollyWally on

    Tem a bola o Garrido. Compete-lhe agora provar que merece a nossa confiança. Caso contrário rua também. Temos de facto que ser muito mais vigilantes e exigentes com quem nos lidera, com racionalidade claro, mas com exigência.

  2. DependentAd8063 on

    Esta carta do Pedro Chagas Freitas descreve exatamente o que me vai na alma. O meu irmão faleceu em 1985, com 20 anos, vítima de cancro. Era tão boavisteiro que o caixão foi coberto com a bandeira do Boavista e com ele levou a camisola axadrezada, na altura oferecida pelo jogador Parente. Eu tinha apenas 8 anos e grande parte das minhas memórias do meu irmão foram passadas no Bessa e à volta do Boavista. É só futebol, mas para mim é muito mais que isso, é memória de um tempo feliz com o meu querido irmão. Foi ele quem me levou pela primeira vez ao Estádio e onde quer que esteja sei que está triste por tudo o que se passa no clube.
    Desculpem o desabafo, abraço a todos. Viva o Boavista e os Boavisteiros!

  3. Equivalent_Joke_6163 on

    Agradecer ao Pedro Chagas Freitas o texto/pensamento/dedicatória, tempo que dedicou da sua vida a pensar em NÓS, adeptos de um Clube por Amor.

    Não tenho a menor das dúvidas que a esmagadora maioria dos boavisteiros se conseguiu ver naquelas palavras.

    É nos tempos de grande dificuldade que precisamos de saber quem nos apoia, quem pensa em nós, quem eventualmente até nos quer ajudar a refletir e o Pedro Chagas Freitas como pessoa mediática teve esta amabilidade.

    Já agora, onde anda Rui Moreira?

    Onde andam os políticos de todos os partidos que estão na Câmara Municipal do Porto?

    Estarão a olhar para a dívida de pavilhões e INATEL que temos e a chamarem-nos de malandros ou estão a pensar como têm a obrigação, sim obrigação, de nos “ajudar’ efetivamente.

    Não, não e não, o Boavista não devia ter de pagar aluguer de pavilhões e/ou INATEL, o Boavista contribuiu muito mais do que esses tostões para a comunidade e muitas das vezes em substituição desta, seja de forma direta ou indireta.

    Sempre Boavista.

  4. philopetrus on

    Bom texto. Vamos ser sempre Boavista. Se um dia voltarmos a ser o Boavista, pelo menos dos anos 80 já fico feliz. O Boavista tem de se libertar dos oportunistas, dos que se governaram e bem às custas do clube. O Boavista era um clube cheio de terrenos e património, numa das zonas mais caras da cidade. Onde está esse dinheiro? Não foi o estádio apenas que nos enterrou… Foi acima de tudo a bandalheira de gestão danosa que o clube teve principalmente na viragem do século até hoje. Sem uma auditoria que pudesse apontar culpados… Eles saíram elesos e nós Boavisteiros é que sofremos.