Quando era miúdo, jogava um jogo chamado "The Manager". Eramos treinadores de futebol de equipas Inglesas, das divisões inferiores à primeira liga. Nos lances de perigo, apareciam as jogadas, que podiam terminar, ou não, em golo. Era fantástico para a época!

Aqui vai link para quem saber do que estou a falar: The Manager gameplay (PC Game, 1991)

Nesse jogo, tive o primeiro contacto com muitas equipas Inglesas que poucos conheciam fora da Inglaterra. Equipas menores como Manchester City, o Cambridge United, o Newcastle ou o Nottingham Forest. Chamávamos àquele clube estranho com uma árvore o clube da floresta.

Como quase sempre acontecia nessa altura, não descansei enquanto não consegui editar os savegames para poder ter mais dinheiro, comprar os jogadores que queria, construir uma equipa com os melhores jogadores e, finalmente, desistir do jogo porque a facilidade acabava por fazer perder o interesse.

O que eu não sabia na altura, com 12 ou 13 anos, é que o futebol acabaria por ser uma réplica da forma como eu jogava aquele jogo, quando fazia batotice, apenas com uma grande diferença: não é apenas um clube a fazer batotice, são dezenas deles.

Olhando para as equipas Inglesas, hoje vemos equipas como o Chelsea, o Manchester City, vencedores da Liga dos Campeões (no caso do primeiro, várias vezes), algum impensável em 1992 ou 1993.

E como conseguiram essas equipas tamanho protagonismo? Foi com a qualidade dos seus presidentes, que com as receitas que tinham, foram melhorando a qualidade e a cultura do clube e à medida que foram ganhando mais desportivamente, também foram aumentando as receitas e melhorando mais o clube, como fazíamos no "The Manager" sem batotice? Não. Nada disso.

Esses clubes simplesmente correram um trainer na vida real (aplicação que permite fazer batotas nos jogos), que lhes deu (e continua a dar) imenso dinheiro, de um momento para o outro. Pior, esse trainer real alimenta-se de dinheiro com origens, quase sempre, muito questionáveis do ponto de vista ético e moral.

O caso mais flagrante é o PSG.  Em Junho de 2011, quando foi comprado pelo Qatar Sports Investments, o clube de Paris contava com 2 títulos nacionais, um em 1986 e outro em 1994. Nesse mesmo ano, correu o trainer para ter dinheiro quase ilimitado.  Resultado: desde 2012 , só não ganhou um título nacional, na época de 2016/2017.

O PSG, só não ganhou a liga dos campeões todos os anos, desde 2012, porque:

a)      O Dinheiro e bons jogadores (ou famosos) nem sempre significa que se tenha boa equipa;

b)     A bola é redonda e em competições a eliminar a sorte é um fator mais relevante que em ligas nacionais;

c)      Existem três equipas Europeias que não precisam do trainer ou do cheat code para ganhar: Barcelona, Real Madrid e Bayern de Munique. Estas equipas conseguem gerar muito dinheiro através de receitas do futebol.

d)     Tirando as referidas na alínea anterior, todos os outros também usaram trainers e cheat codes.

Na prática, o PSG tomou conta do futebol francês com a batotice, porque os rivais ou não têm cheat code ou simplesmente não funciona tão bem. Admira-me que ainda haja franceses, dos que não torcem pelo PSG, a acompanhar as suas equipas e o futebol.

Provavelmente, vão agora vencer algumas Ligas dos Campeões mais, porque, finalmente, correram com as vedetas e construíram uma equipa, mas nada disso era possível sem o “cheat code”.

E foi assim que acordei hoje com as declarações do Farioli a dizer que o Porto não pode competir com o Nottingham Forest em termos de dinheiro, apesar das realizações internacionais desse clube se resumirem a dois anos, no final dos anos 70.

É por tudo isto que eu considero que o futebol moderno é uma grande batotice. É um playground onde magnatas, sabe-se lá de onde, com objetivos paralelos, lutam entre si para ganharem títulos Europeus. Com dinheiro infinito, compram tudo que vem à rede e eventualmente acertam. Não têm de ser precisos nas compras: compram-se 20 e alguns darão certo e outros não.  Não faz mal. Compram literalmente o que querem, tal como eu fazia no “The Manager”, limitados apenas pelo que os outros batoteiros também querem comprar.

by greatparadox

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11 Comments

  1. Pedro-Carvalhido on

    Ainda que partilhando a pouca simpatia por clubes movidos a oil money, em que medida é que antigamente, quando clubes de capitais apoiados por ditaduras militares (olá, Real Madrid, Benfica, etc) era melhor?

    E nos anos 90, a que nostalgicamente te referes, em que medida era bom termos um Milan fortíssimo, com um presidente de clube corrupto que viria a governar o país?

    E o Marselha que ganhou uma Taça dos Campeões Europeus nos anos 90 e lhe foi retirada por causa do escândalo de corrupção do Tapy?

    E a amarelinha que tantos jogadores tomavam e tantos outros tombavam?

    Era assim tão correto no ano passado para que olhemos para a realidade de agora como uma tremenda batotice?

  2. Nunca tinha pensado dessa maneira e realmente faz sentido:

    “Com dinheiro infinito, compram tudo que vem à rede e eventualmente acertam.”

    Chelsea a fazer o que está escrito aqui, a certa altura tinha plantel suficiente para fazer duas equipas titulares de qualidade, chega a ser insano por vezes!

  3. Even-Reason1710 on

    Pensava que era um hot take pelo inicio promissor , mas acabou por ser uma opiniao generalizada

    Concordo contigo tho

  4. Adorava o The Manager, aliás sempre adorei jogos que davam para melhorar estádio.

    Sobre o dinheiro, o futebol até acaba por ser o desporto onde faz menos diferença.

    A Europa podia e devia era ter mais controlo sobre os dinheiros de origens meio merda, mas para isso era preciso ter uma autonomia energética que não vamos conseguir tão cedo.

  5. iShitUnoTbooKa on

    O Nápoles do tempo do Maradona usou dinheiro da Mafia, o Lafc foi comprado por um escroque que faz sportwashing de dinheiro sujo, o Bayern de Munique está implicado com o Usmanov, o Barcelona teve o Rossell implicado em lavagem de dinheiro e o Real Madrid tem um esquema de financiamento com uma parte dos lucros a vir do dinheiro dos contribuintes.

    Futebol = dinheiro sujo

    todos tem culpa no cartório

  6. Acho que também joguei esse manager. Era um que usava bolas para as quantidades? Ou seja, se querias treinar mais o passe punhas mais bolas no passe? E tinha um vídeo, em que os jogadores caiam todos e ficava só um com a bola?

    Bons tempos.

  7. Acho que atualmente prestamos mais atenção à situação a que te referes, mas a verdade é que desde que o futebol se tornou profissional que tem havido esquemas mais ou menos obscuros para ganhar.

    E nem sempre era preciso recorrer a dinheiro. Em 1934 a Itália sagrou-se campeã do mundo com uma data de jogadores sul-americanos naturalizados, por exemplo. Em outras décadas havia magnatas que investiam fortemente em equipas que do nada se tornavam campeãs. Já mencionaram aqui o Milan do Berlusconi, o Marselha do Tappie e eu recordo também o Blackburn dos anos 90.

    Em suma, não estou a rebater os teus argumentos. Hoje em dia o dinheiro é que é de tal forma imenso que esses investimentos se prolongam mais no tempo e as equipas acabam por ganhar mais durante mais anos, mas não é um fenómeno exclusivo do futebol moderno. A dimensão do que falas é que é bem maior.